![]() |
O Passado nas Páginas dos Jornais |
Nessa Paraíba de meu Deus todos nós já ouvimos falar alguma vez na vida de Leandro Gomes de Barros. Seu nome é indissociável da palavra Cordel. Mas eu escrevi “ouvimos”, porque, escutar, aí já são outros quinhentos! Poucas pessoas, de verdade, sabem quem foi o homem que formou a Literatura de Cordel nos moldes que hoje conhecemos, assim como, pouquíssimas pessoas nos dias atuais, se interessam em realmente ler alguma história escrita por Leandro.
Data do Retalho: Quinta-feira, 9 de Setembro de 1976
Jornal: Jornal do Brasil
Título do Retalho: Leandro, o Poeta
Autor: Carlos Drummond de Andrade
Com esse pensamento latejando no juízo, acho que eu, além de levar adiante a arte cordelesca, que me é tão cara, devo também ser um propagador dos seus fundadores, dos seus heróis e de suas histórias de vida fantásticas, pois é fato que a poética nunca esteve alheia ao magistério, à catequese. Os escritores e poetas, por vocação, são professores que repassam a chama dos mitos e lendas, de seu tempo ou do passado, para o futuro, assim como próprio Leandro fez tantas vezes em suas obras. Então vamos lá...
![]() |
Dedicatória do livro Cantadores e Poetas Populares de Francisco das Chagas Baptista |
O Retalho de hoje não vai estar limitado há somente um registro. Irei apresentar os vários registros, pelo menos os que consegui encontrar, sobre o nosso vate, entre livros e jornais, mas que irão somente, servir de complemento ao Retalho Principal. Nesta coluna também irei dar a minha opinião sobre o mais importante registro biográfico sobre Leandro até hoje publicado, o livro de Guttemberg Pereira: LEANDRO GOMES DE BARROS E OS PRIMÓRDIOS DO CORDEL BRASILEIRO. Neste embalo, trago aqui o primeiro relato publicado em livro que cita, nominalmente, Leandro.
Ao Som da Viola (1921), de Gustavo Barroso levou à frente as incipientes pesquisas sobre os vates nordestinos. Pesquisas essas já iniciadas pelo nosso conterrâneo Rodrigues de Carvalho em seu livro Cancioneiro do Norte (1903). É fato que Mello Moraes Filho e Sylvio Romero e alguns outros já haviam publicado livros sobre o nosso cancioneiro brasileiro, mas suas publicações mantém o foco nos Romances e Cantigas de origem portuguesa cantados em nosso solo. Acredito, até que eu tenha outra fonte, que a mudança de foco aconteceu mesmo no livro de Rodrigues, onde o nosso pesquisador foca seu olhar nas prolíferas criações do nosso povo, principalmente os de sua região, o Nordeste. Todavia, apesar de ser contemporâneo de Leandro, Rodrigues não o cita em seu precioso livro.
Seguindo no rastro dos pesquisadores e folcloristas, só temos o nome de Leandro mencionado novamente em livro no Vaqueiros e Cantadores (1939), de Câmara Cascudo. O mais importante norte-rio-grandense que já existiu, nos apresenta uma breve biografia de Leandro, certamente retirada de Chagas Batista, seguida do seu rico relato pessoal que se tornaria a primeira descrição da personalidade e da constituição física de nosso vate. Acerca do que foi escrito, vale salientar dois equívocos: O primeiro afirma que Leandro morreu na Paraíba, o que, como veremos no retalho à frente, não é verdade. Ele faleceu no Pernambuco. O segundo é a informação, também afirmada por Chagas Batista, que o nosso poeta viveu exclusivamente de poesia. Essa informação é parcialmente verdadeira. Em contraponto, Guttemberg afirma em recente seu livro que a primeira função de Leandro, e a que exerceu, em certa medida, por toda vida, foi a de comerciante. Logicamente, a partir do momento em que começa a escrever seus folhetos ele passa a viver da venda da sua poesia e para isso a sua experiência como comerciante lhe foi bastante útil (Pag’s 318 e 319).
![]() |
Registro cedido pelo poeta e amigo Marco Haurélio |
Suassuna cita como fonte em seu relato, os registros feitos por Antônio Attico de Souza, os quais li em edição fac-similar e reproduzo aqui (Pag. 17). Mas aqui vale uma ponderação. Esse autor, Attico, de formação urbana, visita a localidade onde se passou o massacre da Pedra do Reino 30 anos após o acontecido. Carregado de uma visão altamente tendenciosa, seu relato narra os distantes acontecimentos, tomando como partida o ano da sua visita ao local e do seu relato, tento sempre como fonte os depoimentos dos "vencedores", ou seja, das autoridades citadinas, dos coronéis e dos fazendeiros, tratando sempre o povo e os seguidores da "seita" pelos piores adjetivos. E me parece perfeitamente plausível que ele, ou outro, tenha inventando toda essa história de folheto português e sebastianismo para justificar a narrativa das mortes, pois eu até acredito que pode ter ocorrido uma espécie de seita e um Profeta que arregimentou a população, mas também acredito que, assim como em Canudos, que foi massacrado não pela "seita", mas sim porque os "empregados" dos coronéis estavam se esvaindo das fazendas para seguir para o Arraial do Belo Monte, na Pedra do Reino foi inventada essa história de messianismo. Vale lembrar que os eventos da Pedra do Reino (1835-1838) são posteriores aos da Serra do Rodeador (1817-1820), esse também de cunho sebastianista e que por ser no mesmo estado, as autoridades municipais e estaduais tinham perfeito conhecimento do que havia ocorrido no atual município de Bonito, tendo nele a justificativa perfeita para massacrar os exilados da Pedra Bonita. Sendo assim, como Suassuna considera inviável as afirmações de Cascudo sobre Silvino Pirauá e Leandro, eu também considero a dele sobre a veracidade dos relatos tendenciosos narrados por Attico.
![]() |
Sobre o folheto citado |
Teorias à parte, e em contraponto a ambos, Cascudo e Suassuna, Chagas Batista, em seu livro já mencionado, traz outra afirmativa (Pag.114), sendo assim, mesmo que Silvino seja o primeiro a criar um folheto de Cordel, isso nada afeta a imagem de Leandro como o maior e mais prolífero propagador da arte, como também chegam a afirmar os dois Mestres citados. Explico: Silvino era principalmente um cantador de viola e por essa especialidade era e ficou conhecido por inúmeras paragens pelo Nordeste, não se importando de fato com trabalhos impressos, talvez pela dificuldade de se imprimir, talvez por priorizar a cantoria em detrimento ao folheto. Já Leandro era poeta de bancada, ou seja, não era um cantador repentista e ao iniciar sua produção poética tratou logo de imprimi-la onde quer que conseguisse. Após a impressão, ele ganhava mundo andado e declamando pelas feiras das cidades da zona da mata pernambucana, e em seguida no Recife, conseguindo assim, devido a sua imensa produção e qualidade de comerciante, alcançar, em especial, o Nordeste inteiro e, posteriormente, outras regiões do Brasil, se impondo dessa maneira como o grande pioneiro da cultura folhetesca de Cordel. E por que toda essa discursão acerca do título de "Pai do Cordel" é importante? Porque é necessário que o povo, no caso o Nordestino, saiba que tem heróis para se espelhar e que estes heróis produziram obras que vale a pena propagar, pois são estas mesmas obras que formam, elevam e dignificam esse mesmo povo.
![]() |
(1914-1986) |
![]() |
Folhetos em homenagem a Raymond Cantel |
“Raymond Cantel (1914-1986),
eminente professor e pesquisador francês, lecionou durante anos na Universidade
de Poitiers, onde dirigiu a faculdade de Letras e fundou o Centre de Recherches
Latino-Américaines (CRLA), em 1966, antes de concluir sua carreira em Paris na
Universidade Sorbonne. Entre o final dos anos 1950 e os anos 1960, após
análises marcantes sobre o padre Antônio Vieira, começou a reunir uma coleção
de folhetos, além de diversos materiais relativos à literatura de cordel
produzida no Brasil (gravações, vídeos etc.).
Desde então, a paixão de
Cantel pela cultura popular brasileira tornou-se cada vez mais forte,
desdobrando-se em uma série de estudos, e, principalmente, não cessando de
alimentar sua coleção de cordel, que cresceu ao longo de inúmeras viagens e por
intermédio de uma ampla rede de contatos naquele país.
Com o passar dos anos, tal
acervo, hoje sob a guarda do CRLA desde a doação oficial em 2001,
transformou-se em uma das mais importantes coleções europeias de literatura de
cordel brasileira, e constitui um testemunho ímpar da história da produção do
cordel. A valorização deste patrimônio permite interrogar a noção de cultura
“popular” e adotar uma perspectiva multidisciplinar quanto à diversidade dos
suportes semióticos em jogo: folheto, cantoria, desenho, gravura”. Texto
retirado do site: (Acervo Raymond
Cantel · Biblioteca Virtual Cordel - Biblioteca Virtual Cordel - Bibliothèque
virtuelle de l'Université de Poitiers)
Bom, conforme citado acima, foi,
a partir do trabalho de tese de doutorado sobre o padre Antônio Vieira e o
sebastianismo português, que Cantel toma conhecimento, na cidade de Salvador, da
profusa Literatura de Cordel Brasileira. Em seu trabalho, datado de 1959, ele já fazia alusão ao profícuo trabalho de Leandro. Em 1970 o professor Cantel publica sua tese nos
“Cadernos do Mundo Hispânico e Luso-Brasileiro”, n°15, 1970, Pag’s (57 a
72), e explica acerca da publicação de folhetos com o tema messiânico do
sebastianismo (em tradução livre):
“A primeira dessas razões pode ser que os catálogos, como os conhecemos, só passaram a ser impressos no Nordeste a partir de 1890, logo após o desenvolvimento das prensas tipográficas na região. Notemos também que o primeiro e mais famoso poeta nordestino popular a ser impresso, Leandro Gomes de Barros, não parece ter sido de veia messiânica. Estamos longe de conhecer a lista completa de suas produções, mas, nos duzentos e cinco títulos que lhe são atribuídos pela Antologia do Centro de Pesquisa da Casa Rui Barbosa, nenhum parece tratar de profecias, enquanto seus sucessores não deixarão de explorar um gênero de sucesso garantido”.
![]() |
Texto de Cantel no original |
Em paralelo aos estudos de Cantel, e com o apoio e colaboração dele e de muitos outros pesquisadores como Sebastião Nunes Batista, na década de 70, a Fundação Casa de Rui Barbosa em parceria com o Ministério da Educação e Cultura, publica a série de livros, já citada acima, Literatura Popular em Verso, nos quais se apresentam os livros: Estudos TOMO I (1973); Catálogo TOMO I (1961); Antologia TOMO I (1964); Antologia TOMO II (1976); Antologia TOMO III (1977); Antologia TOMO IV (1977); Antologia TOMO V (1980). Todos disponíveis para consulta no site: Biblioteca São Clemente - DocReader Web. Desta compilação vários folhetos e informações sobre Leandro são publicados, sendo que nos TOMOS II, III e V são compilações exclusivas para o nosso querido “Pai do Cordel’. Nesta mesma plataforma podemos também consultar um imenso acervo digitalizado dos folhetos de Leandro. Todos disponíveis no endereço: Folhetos de Papel: Memória do Cordel - DocReader Web.
Da década de 70 em diante outros
livros começam a ser publicados sobre a literatura de cordel, acho eu que
justamente pela influência do professor francês, todavia estes livros não nos
trazem nenhuma nova informação sobre a Biografia e sobre a obra de Leandro se
limitando a replicar as informações já coletadas. Também começamos a ter as
primeiras pesquisas universitárias e os primeiros trabalhos acadêmicos a
respeito do Cordel e por consequência sempre citando Leandro. O único registro
desse período que, a meu ver, merece vulto é o livro: Memória de Lutas:
Literatura de Folhetos do Nordeste (1893-1930) de Ruth Brito Lemos Terra,
no qual a autora expõe, com algumas compreensíveis inconsistências, a biografia
dos primeiros poetas cordelistas. No entanto, é somente em 2014 temos algo verdadeiramente novo sobre o nosso vate, é o livro de Arievaldo Vianna, Leandro Gomes de Barros: vida e obra.
Em seu livro Arievaldo propõe uma leitura histórica e biográfica da vida de Leandro. De fato, esta é a primeira publicação que se dedica exclusivamente a pesquisar a vida e obra do “Pai do Cordel”. Em suas páginas encontramos depoimentos, fotos, certidões e versos que compunham um rico material de estudo, inédito até então. Porém, devido a justificáveis problemas, como fontes e depoimentos enganosos e todas as dificuldades de ordem financeiras que os pesquisadores enfrentam neste país, o livro apresenta inconsistências. Arievaldo era ciente disso e já preparava, antes de seu repentino encantamento, uma segunda edição.
Todas essas incoerências
percebidas foram sanadas, posteriormente, pela publicação que encerro essa
sequência de referências, o livro de Guttemberg Pereira: Leandro Gomes de
Barros e os Primórdios do Cordel Brasileiro. Com o subtítulo: A história de
um jovem retirante, expulso de sua terra pela seca mais arrasadora já
registrada no sertão da paraíba, que veio a se tornar o maior ícone da
literatura popular do Brasil. Bom, elevadíssimo Leitor, gostaria aqui de
abrir um grande parêntese e tecer mais do que uma referência ao livro do
parente e conterrâneo de Leandro, gostaria de tecer alguns pequenos comentários pós leitura.
Foi justamente na feitura dessa coluna
que cheguei até o nome de Guttemberg, o qual, em uma matéria do Jornal da
Paraíba, descrevia um pouco da vida de Leandro e anunciava a sua nova biografia.
Dessa maneira, eu, como uma traça faminta, já busquei o contato dele para
consumir as páginas de mais um livro. Encontrei uma pessoa
excelente que atendeu a minha fome de informação com as maiores das gentilezas,
tendo em vista que eu era uma traça desconhecida para ele até então. Conversamos
e ele me explicou como eu deveria proceder para adquirir o livro. Comprei o danado e deixei esta
coluna em suspenso até concluir sua leitura. Vale salientar aqui, que ainda não
conversei pessoalmente com Guttemberg após a conclusão da leitura, estou escrevendo
estas palavras antes de revelar para ele os sentimentos, no campo pessoal, que
sua obra me gerou. Isso ficará entre nós.
Pois bem.
Não quero aqui fazer um
julgamento literário sobre a obra, até pelo motivo de não ter formação acadêmica pra isso. Também não desejo relatar minhas impressões sobre a forma escolhida
para contar essa história ou as ferramentas utilizadas. Meu julgamento aqui é
um só: Esta obra fez ou não fez jus a memória de Leandro Gomes de Barros? Teço
essa resposta não por eu achar que sou o dono da memória de Leandro, longe de mim. Teço
essa resposta pelos incontáveis livros biográficos, ou pseudo-biograficos, que
já li nesta caminhada de estudos sobre a cultura brasileira e como um nordestino, incondicionalmente, apaixonado pela sua terra e seu povo.
Sendo assim, a resposta que chego é: Faz jus!
Explico (e não há novidades no
que explicarei):
Para narrar a vida de alguém,
acho eu, que precisamos ter o mínimo de seriedade e comprometimento. É preciso
que o escritor faça um levantamento preciso e completo sobre como a sociedade, em
que o biografado estava inserido, se comportava. Quais eram seus cheiros, seus sabores,
seus sons e seus tatos e pensamentos. É preciso traçar os costumes e manias dos
contemporâneos do biografado, pois estes influenciaram de forma efetiva o mesmo
e, consequentemente, a sua obra. É preciso, e sobretudo, que o escritor apresente
todas as suas fontes, para que nós, os leitores, tenhamos acesso ao imenso manancial
em que o escritor mergulhou, pois assim, poderemos julgar a validade ou
invalidade de sua obra.
![]() |
Perfil do Instagram de Guttemberg Pereira |
A obra Guttemberg ainda tem outro adendo importantíssimo, que tanto pode ser perigoso como valoroso, é o fato de o autor ser parente direto do biografado. Neste caso, em específico, acho eu que foi bem mais valoroso do que perigoso, talvez pela distância temporal, o escritor conseguiu, de uma forma efetivamente informativa, somar as histórias familiares com fatos e documentos levantados. Dessa maneira, Gutemberg desfaz mitos, que deixo para você, meu elevadíssimo Leitor, descobrir, acerca da personalidade e da biografia de Leandro. Número para comprar o livro com o autor: 83 99625-5995
Outro ponto que me chamou atenção no livro foi as ambientações históricas, criadas pela escrita de Guttemberg, novamente, baseada nos registros da época, em que Leandro se viu inserido. Por esta escrita revisitamos localidades já conhecidas da trajetória do nosso poeta, mas, dessa vez, com o frescor novo dos fatos adentrando em nosso juízo. Assim somos levados ao Sítio Melancia e à Ribeira do Rio Piranhas, em seguida às elevadas terras da cidade de Teixeira, chegando enfim até a zona da mata pernambucana e às várias cidades que Leandro residiu. Sugiro ao elevadíssimo Leitor que leia o livro com o Google Maps aberto em seu smartphone e que a cada sítio, cidade e endereço citado no livro, mesmo o livro apresentando várias fotos antigas dos locais referenciados, faça uma pesquisa neste aplicativo para que assim tenha uma experiência mais imersiva e divertida. E se posso dar a minha contribuição à obra de Guttemberg, indico a leitura de todos os retalhos de jornais que coloco abaixo, que não foram inseridos à obra, acredito eu, por simples motivos editoriais, mas que, vez por outra, são citados no decorrer do livro.
O que também me surpreendeu bastante nas páginas desta biografia foi a ligação dos Modernistas (no plural) com a obra de Leandro e, consequentemente, com a Literatura de Cordel. Não quero entrar aqui nos pormenores desta improvável ligação, pois é preciso ler o livro, no entanto eu a conecto, e encerro minhas impressões sobre a excelente obra de Guttemberg, com o Retalho principal desta coluna: LEANDRO, O POETA, de Carlos Drummond de Andrade publicada no Jornal do Brasil de 9 de Setembro de 1976. Também sobre esta coluna Guttemberg discorre em seu livro, todavia deixa em aberto ao leitor, após apresentar contrapontos, a real interpretação das palavras do poeta de Itabira. Sendo assim, aqui vão as minhas:
Drummond, como um não nordestino e filhos das elites, por mais que procurasse entender e beber nas fontes culturais
do povo brasileiro, não poderia medir as extensões de suas palavras nesta
pequena coluna, talvez a sua coluna que mais reverberou pelo tempo, diante de
um povo tão orgulhosamente bairrista como é o nosso povo nordestino. Nos dias atuais,
este texto é sempre referenciado quando se toca no nome de Leandro Gomes de
Barros, e predominantemente, como motivo de orgulho e validação de mais um grande
vulto do povo nordestino. O que é justo! Como disse Fernando Pessoa ao concluir
seu poema Isto: “Sentir, sinta quem lê”! Se quem leu a coluna se sentiu assim, orgulhoso de ver seu conterrâneo valorizado, é justíssimo
que o sinta. Eu me senti!
![]() |
Carlos Drummond de Andrade |
Mas é sempre perigoso quando caímos nestas validações, pois é como se precisássemos das aprovações externas, no caso Drummond, poeta de renome, para olharmos com seriedade e valorização a figura de Leandro e de qualquer outro. Quando, de verdade, me parece, neste caso, ser exatamente ao contrário. Em seu texto, me fica claro, que, para exaltar Leandro, o poeta mineiro diminui Olavo Bilac, o qual a turma modernista de Drummond, respeitava, mas não admirava, e a eleição que galgou o poeta parnasiano a Príncipe dos Poetas Brasileiros. Dito isso, o texto me parece mais uma crítica a Bilac do que uma elegia a Leandro, mas, assim como Guttemberg, eu deixo ao elevadíssimo Leitor que tire também suas conclusões a partir do texto drummoniano aqui exposto. Leandro publicou e vendeu mais versos do que qualquer outro poeta no Brasil, pois foi o povo que leu os seus versos. Eu de fato acho que Leandro é o “Rei da Poesia do Sertão e do Brasil em estado puro”, como citado abaixo, mas não porque Drummond simplesmente disse, talvez com uma pitada de sarcasmo e desprezo ao parnasianista (afinal um Rei tem mais soberania que um Príncipe), mas porque ele realmente é, como afirmou, já muito antes de Drummond, nosso conterrâneo, Francisco da Chagas Batista, outro poeta do povo, em trecho de seu livro aqui já citado (Pag. 115)!
![]() |
LEANDRO, O POETA, de Carlos Drummond de Andrade publicada no Jornal do Brasil de 9 de Setembro de 1976 |
Demais retalhos encontrados sobre Leandro em vários jornais:
Jornal O Rebate 1909 - Ceará - A Creação do Mundo |
Jornal O Rebate 1909 - Ceará - Lucta do Diabo com Antônio Silvino |
Jornal O Rebate 1910 - Ceará - A Proclamação dos Banhos |
Jornal O Rebate 1910 - Ceará - As Capas de Uma Viúva |
Jornal O Rebate 1910 - Ceará - As Lagrimas de Antônio Silvino Por Tempestade |
Jornal O Rebate 1910 - Ceará - Ciúmes de Duas Novias |
Jornal O Rebate 1910 - Ceará - O Padre do Joazeiro |
Revista Illustração 1936 - Pedro Batista sobre a popularidade de Leandro |
![]() |
Jornal do Recife 1912 - Pernambuco - Envio de Leandro ao Jornal |
![]() |
Jornal do Recife 1912 - Pernambuco - Folheto em Homenagem |
![]() |
Jornal A Província 1918 - Pernambuco - Nota de Falecimento de Leandro |
![]() |
Jornal A Província 1917 - Pernambuco - Envio de Folheto de Leandro |
![]() |
Jornal A Província 1916 - Pernambuco - Protesto de Plagio de Leandro |

![]() |
Com o dobro do tamanho da França, o Nordeste brasileiro tem características muito particulares que o distinguem do Brasil úmido da floresta amazônica, bem como do Brasil meridional do café e da indústria moderna. O Nordeste é caracterizado sobretudo por seu interior seco e inóspito: o sertão, onde uma vegetação espinhosa e vigorosa (a Caatinga) dificulta a penetração humana. O sertanejo viveu muito tempo sozinho e longe do progresso. Ele moldou em parte sua própria civilização. Ele criou um folclore, artes e literatura popular extremamente originais.
Foi por volta de 1890 que os primeiros folhetos impressos apareceram em feiras e mercados. Esses livretos, geralmente com oito, dezesseis ou trinta e duas páginas e de formato modesto, aproximadamente 11 centímetros por 16 centímetros, nasceram da fusão de uma dupla tradição. A primeira, oral, era a de cantores e contadores de histórias populares que iam de fazenda em fazenda na época das festas para se oporem em justas improvisadas cuja inspiração era apoiada tanto no violão quanto na cachaça. A segunda, escrita, era a de livros populares ou folhetos, narrativos, satíricos ou políticos e composta de um ou dois cadernos impressos em papel de má qualidade. Entretanto, no final do século, a escravidão foi abolida no Brasil, a República foi proclamada, as condições de vida mudaram um pouco com a maior mobilidade da população e, finalmente, impressoras rudimentares foram estabelecidas nas pequenas cidades do Nordeste. Os bardos populares gradualmente pararam de ir às propriedades. Eles preferem visitar feiras e mercados que ganharam importância. É aqui que eles cantam ou leem e vendem seus produtos.
A Corporação
De início, surgiu um clássico, cujo sucesso se afirmou e que utilizou os novos meios de difusão que surgiram no Nordeste. Leandro Gomes de Barros é dono de sua gráfica, localizada no Recife. Nos primeiros anos do nosso século, sua fertilidade era tal que podia oferecer quinhentos títulos diferentes ao público. Devemos-lhe os folhetos e romances mais fielmente republicados, entre outros João da Cruz, Canção de Fogo, Cachorro dos Mortos. Seu modesto negócio prosperou até sua morte por volta de 1920.
Sua viúva venderia logo depois seus direitos para João Martins de Athayde, do Recife, que assinaria seu nome tanto em suas produções quanto nas reedições de Leandro, antes de vender seu negócio, por sua vez, em 1947, para José Bernardo da Silva. Esta ainda foi instalada nos últimos anos em Juazeiro-do-Norte, cidade do Padre Cícero, capital espiritual do Nordeste. Durante a primeira metade do século, o número de poetas populares se multiplicou. Inicialmente vendiam suas obras por cem, duzentos ou trezentos folhetos, que depois revendiam em feiras, mas os que tinham sucesso acabavam comprando sua própria tipografia. Foi o caso de Manuel Camilo dos Santos em Campina Grande, João Batista de Sena em Fortaleza, João José Silva em Recife, e todos eles tinham uma rede de correspondentes e revendedores na maioria das grandes cidades do Brasil, da Bahia ao Rio e Manaus, e recentemente em Brasília e São Paulo, porque os nordestinos expatriados queriam redescobrir sua literatura familiar.
Um dos mais prolíficos desses trovadores, autor de mais de quinhentos folhetos ou romances originais, Rodrigo Coelho Cavalcante, chegou a tentar organizar a profissão. Surgiu então a Corporação Brasileira de Trovadores. Organizaram-se congressos, a revista O Trovador continua a ser publicada à custa de muitos sacrifícios. Não esqueçamos que o mundo da literatura de cordel é o dos semianalfabetos. A cultura dos travadores é muito rudimentar e eles se dirigem principalmente a um público que não sabe ler nem escrever. A literatura dos documentários é mais para o ouvido do que para a vista. Um verso que parece ruim no papel não é nada ruim quando ouvido.
Gravuras naifs
Para atrair atenção, poetas populares, que já eram autores e editores, muitas vezes se tornavam gravadores. Seus canivetes fizeram surgir, a partir de humildes pedaços de madeira, essas xilogravuras rudimentares, porém altamente expressivas, que adornam as capas dos folhetos. Desenvolveu-se uma arte genuinamente ingênua, que inspirou artistas e deu origem a exposições e luxuosos álbuns de reproduções. Infelizmente, por mais de vinte anos, os grandes jornais emprestaram seus clichês de zinco e, com muita frequência, são as estrelas do cinema americano que dominam as capas. Isso é ainda melhor do que as tricromias agressivas das revistas modernas, como no caso das separatas de folhetos da Editora Prelúdio de São Paulo, que costumam invadir o mercado.
Leandro Gomes de Barros já havia estabelecido todos os gêneros dessa literatura, cuja primeira característica comum é que ela só pode ser escrita em versos e estrofes rimadas. Quase sempre, o verso é o heptassílabo do romance ibérico e a estrofe é a sextilha rimada em todos os versos pares. Em seguida vem a estrofe de sete linhas, um pouco mais lírica. As discussões ou pelejas, descendentes distantes dos cantos de amebas da antiguidade e dos cantos alternados portugueses, exigem verdadeiro virtuosismo, que chega até à embriaguez verbal. Usando o heptassílabo e o decassílabo em combinações variadas e com restrições precisas, são o triunfo da improvisação: A discussão entre Romano e Inácio da Catingueira, Peleja de Severino Simeão contra Ana Rouxinha. Há também os A.B.C.s, cujas estrofes começam sucessivamente com as letras do alfabeto, e há os acrósticos das últimas estrofes, que permitem que aqueles que vendem seus poemas para uma editora os assinem discretamente.
De Carlos Magno à "Imperatriz Porcina"
Da herança europeia, incontestavelmente, surgiu, através da tradição oral e escrita, o ciclo carolíngio. As aventuras de Carlos Magno e dos doze pares da França continuam encantando os caboclos. Há também Roberto, o Diabo, a Imperatriz Porcina, a Jovem Dama Teodoro, Pedro e Maguelonne, a História de João de Calais e a do Soldado Francês. Pedro de Malasartes, digno companheiro ibérico de Juan de Urdemalas, inspirou a linha de heróis picarescos ou fantásticos do Nordeste; Canção de Fogo, Calor de Figo, João Grilo e família Vira Mundo. Todos esses folhetos, constantemente reeditados, têm venda garantida.
O ciclo religioso é abundante: vai das vidas dos santos às profecias populares que anunciavam o fim iminente do mundo, passando pelas querelas entre protestantes e católicos, que sempre terminavam em benefício destes últimos. Histórias de amor fantásticas dão vida a uma maravilha muito medieval e europeia, pagã ou cristã: A História do Pavão Maravilhoso. A vingança da princesa do reino de Bon Jardin, etc.
A vida do Nordeste inspira os folhetos mais interessantes, ainda que Roland e Olivier tenham trazido sua predestinação, sua coragem e sua relativa invulnerabilidade aos heróis nordestinos. Valentes agressivos ou defensores da viúva e do órfão, ou ainda cangaceiros, isto é, tanto bandidos de honra quanto salteadores, todos têm mais ou menos as mesmas características num mundo rigorosamente dividido entre bons e maus. O mesmo vale para os famosos touros ou cavalos selvagens, cuja lenda embelezada preenche o bestiário do norte. Os dois grandes heróis são Lampião, o último e mais famoso dos cangaceiros, morto em 1938, e Padre Cícero (1844-1934), o milagreiro de Juazeiro, verdadeiro padrinho das multidões camponesas do Nordeste. Seus nomes aparecem em centenas de folbetos e inspiraram dezenas e dezenas de outros.
Evite naufrágio
Toda essa literatura reflete uma moralidade pragmática ingênua, misturada com uma religiosidade surpreendente. Tal poeta lembra que a promiscuidade dos banhos de mar — tema frequente — leva à maternidade. Severino Carlos conta a história da mulher que teve a testa adornada com um chifre por ter desrespeitado o Padre Cícero, o santo de Juazeiro. O céu pune crianças e pais maus com metamorfoses: A história do menino que se transformou em um cavalo. História da menina que se tornou uma cobra. História da menina transformada em porca. Pornografia e palavrões são a exceção. O tom suspeito de algumas de nossas antigas publicações de vendedores ambulantes é praticamente desconhecido. Os trovadores têm como objetivo educar os ignorantes e isolados, informá-los e entretê-los, proporcionando-lhes alguns momentos de fuga. Manuel Camilo, editor de A Estrela da Poesia, afirmava que sua coleção trazia instrução, alegria e paz aos leitores, com histórias em que a virtude era sempre recompensada e os erros ortográficos corrigidos.
Embora nenhum tolheto da literatura feirante do Nordeste seja obra-prima no sentido da literatura oficial — de colarinho e gravata falsos, como se diz no país —, não faltam passagens inspiradas e o conjunto é impactante. Constitui o tesouro insubstituível que devemos sempre questionar para conhecer a alma dos nordestinos, sua língua e seus sentimentos. Poetas populares traduziram as profundas aspirações de seus irmãos em seus versos ásperos. Durante muito tempo, o folbetos foi a única literatura que fornecia tanto informação quanto fuga. Jornais, histórias em quadrinhos e transistores estão acelerando seu declínio mais do que problemas administrativos ou o preço cada vez maior do papel. Que eles sobrevivam por muito tempo ainda, e que aqueles que ainda puderem ser resgatados sejam salvos da destruição. Inspiraram Jorge Amado, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Nelo, Ariano Suassuna. Este último no Recife, Câmara Cascudo em Natal, Theo Brandão em Maceió, o saudoso Cavalcante Proença no Rio, fizeram e fazem os maiores esforços para evitar o naufrágio.